Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

 

         Ele pôs-se de pé ainda a agarrar a minha mão. Fomos até ao café e ouvi o senhor do outro lado do balcão dizer:
         — Oh que pequenina tão querida! Nunca a tinha visto… É a sobrinha da Lucia?
         — Não, a sobrinha da Lucia chama-se Liliana. Esta é a… - vi a confusão encher o seu olhar e olhou-me nos olhos tentando relembrar algo, enquanto coçava a cabeça – bem não me lembro.
         A expressão de confusão aumentou no olhar dele, enquanto agarrava com mais força a minha mão. Já o Senhor enquanto dava um Epá ao meu recente amigo olhava para mim com um certo carinho no olhar.
         — Então pequenina? Como te chamas? – olhava para mim. Agarrei com mais força a mão do rapaz. “Não falar com estranhos” ouvi a minha mãe a dizer mentalmente.
         — Podes dizer, não tem mal. Não fiques assustada. – disse o rapaz, enquanto descia ficando ao meu nível e olhando-me nos olhos. A voz dele, o olhar, o sorriso dava-me uma estranha segurança.
         — Sara.
         Pegou-me ao colo e estendeu o meu braço para o outro lado do balcão enquanto o senhor agarrou na minha mão como se eu fosse adulta.
         — Olá Sara! – o senhor exibia um longo sorriso enquanto abanava a minha mão para baixo e para cima – Eu chamo-me Victor!
         Ainda comigo ao colo voltamos para o parque. O rapaz pousou-me na areia e sentou-se ao meu lado a desfrutar do seu gelado.
         — E tu?
         — Eu o quê? – olhou-me com confusão enquanto piscava os olhos um pouco mais depressa do que o normal.
         — Como te chamas? –parecia-me uma pergunta justa. Eu sabia o nome dele.
         — David. – disse enquanto se ria, como se o que tivesse perguntado fosse a coisa mais óbvia.
         Acenei com a cabeça. David. Gostava daquele nome do meu novo amigo. Pensava se já tinha ouvido alguém que se chamasse David… Não me lembrava de ninguém. Mas este pensamento foi interrompido. Os meus pais. Vinham a descer a rampa e a minha mãe já me acenava com um grande sorriso na cara. Eu depressa acenei de volta. O rapaz olhou para mim e depois olhou na direcção em que eu olhava.
         — São os teus pais? – perguntou-me com um sorriso.
         — São! – respondi eu com a felicidade explicita na voz.
         Quando reparei já estava a minha mãe ao pé de mim, a agarrar-me na mão enquanto olhava para o David.
         — Vês? Fizeste um amigo! – disse quando desviou o olhar para me ver, e de seguida voltou a olhar para ele – Como te chamas?
         — Eu sou o David! Tenho 9 anos! Conheci a Sara aqui no parque, é muito inteligente e parece simpática, mas não é muito faladora, pois não? Estão de visita? Vieram de férias? Eu tenho aqui casa! Quer dizer, o meu irmão tem. Mas eu vivo com ele! E por isso tenho aqui casa. Assim eu e a Sara podemos ser amigos, pode ser?
         A minha mãe olhava-lhe nos olhos estupfacta e eu percebi que o meu pai se tinha perdido no diálogo, quase monólogo, do David. Até eu estava surpreendida. Não me tinha apercebido que fosse tão falador.
         — Bem, gostavas de ir para jornalista? Pareces ter muito jeito para perguntas. Claro que podem ser amigos! Nós compramos aqui uma casa. Estás a gostar do gelado? – a minha mãe exibia-lhe um sorriso enquanto olhava para o gelado que o David comia.
         O David olhou para o gelado durante algum tempo. Perguntei-me se ele estava triste.
         — É bom. Eu gosto de Epá’s! Mas toma, a Sara não gosta… Prova, comam, é bom! E a Lucia diz que faz bem à saúde!- dizia ele enquanto estendia a mão na direcção da minha com o gelado pronto para lho dar.
         — Oh obrigada! Mas eu não quero, come, mas muito obrigada! – os olhos da minha mãe brilhavam de felicidade. E posso dizer que desde esse dia a minha mãe tem um certo fascínio pelo David. – mas nós temos de ir. A Sara ainda nem viu a casa. Posso roubar-ta hoje? Depois podem continuar a brincar. Pode ser?
         Nesse momento percebi que o David ainda me dava a mão pois apertou-a ainda com mais força. Olhou para mim e eu sorri para ele. Aquilo significava que ia poder estar com ele mais vezes. Ele sorriu-me de volta.
         — Claro! – e olhou outra vez para mim com um grande sorriso.
         A minha mãe pegou na minha mão e levantou-me com cuidado. O David também se levantou e disse adeus com a mão. Eu ia de mãos dadas com a minha mãe com o meu pai um pouco mais à frente. Já estava fora do jardim e quase a entrar no carro quando comecei a correr para trás. Corri como não me lembrava de alguma vez ter corrido. Ele estava perto do baloiço, à espera para poder andar, quando eu me lancei para ele e agarrei-lhe as pernas com toda a força que tinha. Ele desceu ao meu nível.
         — Que se passa? – perguntou ele com o pânico a fazer vibrar-lhe a voz.
         — Vais ser sempre meu amigo? – perguntei-lhe eu com a minha voz aguda e fraca de criança.
         — Sempre, sempre! Nunca duvides disso! Eu vou estar sempre contigo, quando precisares de mim eu estarei sempre aqui para ti! Vou ser sempre o teu protector!
         O sorriso não só encheu os meus lábios, como acreditava que todo o meu corpo estaria a sorrir. Larguei-o e corri para o carro. A minha mãe olhava-me um pouco preocupada. Entrei para a parte de trás do carro e sorri-lhe. Prendeu-me na cadeirinha (eu odiava andar na cadeirinha, mas estava tão feliz que isso nem me incomodou).
         — Pergunto-me se não te devia perceber melhor. – falava enquanto passava os cintos por mim – Há pessoas a quem não ligas nenhuma. Outras que te encantam, como este rapaz. Mas realmente é um bom rapaz. Que querido. – passou a mão pelo meu cabelo e deu-me um sorriso, fechou a porta e eu olhei pela janela. O carro começou a andar e eu vi o rapaz pela janela. Disse-me adeus e eu restribui com a minha pequena mão. Naquela altura não sabia o que aquele rapaz ia ser para mim. Só sabia que gostava dele. Não sabia que ia ser o meu melhor amigo. Que ia ser o meu irmão.


publicado por Sandy às 16:02 | link do post | comentar

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