Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

A música começou. Uma rapariga vestida de branco movimenta-se pelo palco. A sua dança é suave. Um rapaz igualmente vestido de branco aproxima-se dela. E ambos começam a dançar. Uma dança envolvente, cativante. Como um pai a ensinar a filha a dar os primeiros passos. Aparece escrito em letras brancas Deus criou o Homem à sua imagem e semelhança e ela dança com ele. Mas então aparece Mas nem sempre se consegue resistir à tentação e um rapaz vestido de vermelho aparece, arrasta a rapariga para a sua dança e ambos começam a dançar, enquanto a expressão do rapaz de branco sofre pedindo-lhe que volte, lançando-lhe os seus braços como cordas para a salvar. Ela agarra-se a eles, mas o rapaz de vermelho agarra-a com mais força e eles continuam a dançar. A encher o público com a sua dança que nos hipnotiza, a música que nos envolve, fazendo esquecer o espaço em redor. Levando-nos a esquecer que estamos num teatro. Aparece Até onde nos vendemos para conseguirmos aquilo que queremos? E um rapaz aparece, atira-lhe notas como se atirasse migalhas e ela segue-o sem parar, numa dança sozinha e solitária atrás dele, apanhando todas as notas como se fosse a sua vida. Quando o excesso de diversão nos destroi fisica e psicologicamente e aparecem dois jovens de garrafas na mão, com passo desajeitado a contrastar com toda a harmonia da dança, da música, do espectáculo. A rapariga olha para eles, acabando por ser puxada para junto deles. Pega na garrafa separa-se e começa a beber. Uma das jovens arranca-lhe a bebida da mão e com cara de desprezo afasta-se. Quando consideramos que a imagem é tudo, aparecem problemas, como a bulimia e a anorexia uma rapariga loira de cabelos compridos, bota alta, vestido e pintada entra em palco. A rapariga de branco olha-a fascinada. Paralisa a sua dança. Olha-a como se visse um Deus. A outra rapariga por sua vez roda em volta dela, olhando-a de cima a baixo como se visse uma aberração. A rapariga quando fica sozinha olha para si, demonstra o sofrimento através dos seus movimentos e começa a mexer no seu corpo, a soltar o cabelo e a fingir que vomita. E continua assim. Neste momento um choque paralisou-me. Quando apenas queremos acabar com toda a dor para sempre. E a morte aparece atrás da rapariga e leva-lhe uma faca. Dá-lhe a faca e a rapariga começa a dançar em torno de si olhando para a faca. Começa a passá-la nos pulsos e nos braços deixando um rasto vermelho por onde passa.

A minha mente dizia-me Não. Não vais fazê-lo mas não fui a tempo. As lágrimas já me corriam pela face. Por muito que tentasse, não conseguia. Só rezava para que ninguém notasse. E tentei continuar a ver. Quando senti que a minha boca queria soluçar, gritar, pus as minhas mãos com toda a força que tinha à frente da boca. Mas sabia que não iria aguentar muito mais tempo. O choro iria tirar a melhor sobre mim. E a morte continuava a rodear a rapariga que se matava. Sem mais forças, enterrei a minha cara num acto de desespero no colo da Inês que estava ao meu lado. Ela percebeu e começou a passar-me a mão pelos cabelos Já passou querida, já passou dizia ela. Eu sentia todo o meu corpo a tremer e tentava sufocar os soluços contra o seu casaco. Quando acabou a música, levantei a cabeça, limpei os olhos, olhei para ela que me acenou em sinal de não se nota. Aumentaram as luzes sobre a plateia. Apesar de a tristeza começar a dar lugar a raiva dentro de mim, por fora continuei igual. O Ruben que estava do outro lado percebeu que tinha chorado, mas nada disse. Mais ninguém percebeu espero eu.

       Foi uma das melhores peças que vi hoje. A dança estava muito bem conseguida. Foi por uma das turmas do 11ºano. Mesmo muito bom.

       E assim foi a primeira vez, desde os meus três anos, que chorei na festa de natal da escola. Alguma vez teria de ser…

… Ou talvez não, talvez apenas seja demasiado fraca.

 



publicado por Sandy às 20:46 | link do post | comentar | ver comentários (17)

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