Domingo, 5 de Julho de 2009

 

         Os outros rapazes olhavam-no com medo mas tentavam demonstrar coragem. Mesmo assim o alto rapaz moreno não queria sair dali e percebi que me deitava olhares rápidos e depressa voltava a olhar para os rapazes que tinha à sua frente. Estes olharam-no com precaução. Trocaram olhares e depressa uma bola foi chutada e todos aqueles rapazes correram atrás da bola não voltando a olhar para mim.
         Por sua vez, o rapaz moreno deixou-se ficar e cada vez se aproximou mais. Tenho noção que conforme ele se aproximava de mim o meu corpo recuava instintivamente. Porém quando pousou a mão no meu cabelo e acariciou-o voltei a olhar-lhe nos olhos e vi uma doçura espantosa naqueles olhos cor de azeitona. Por instantes pensei que via um anjo a olhar-me.
         — Olá menina – o sorriso dele mostrou-se demasiado perfeito para ser real mas assustou-se um pouco talvez com o olhar que fiz quando ouvi aquela frase, afinal já a tinha ouvido algumas vezes hoje sem ser com os seres mais conversadores do mundo. Enquanto isso os braços dele puxaram-me para cima e deixei de estar deitada passando a ficar sentada.
         Devia ser uns anos mais velho que eu e mostrava um sorriso perfeito enquanto me limpava a cara da areia que se tinha colado à humidade das lágrimas.
         — Não lhes ligues, são estúpidos.
         Ouvi com atenção a sua voz. Pôs ternura em tudo o que disse, cada palavra saía da sua boca com um cuidado extremo como se tivesse medo de me assustar. O cabelo preto e curto assentava-lhe na perfeição. Mas o que realmente me prendia era o seu sorriso.
         — Não estejas com medo… Eu não te faço mal, podes falar comigo.
         Eu não queria falar, sabia que a minha voz sairia aos soluços devido ao choro. Mas também não queria que ele fosse embora.
         — Ficas aqui? – a minha voz não foi muito mais que um suspiro, mas consegui perceber uma certa felicidade nos seus grandes olhos de azeitona.
         — Sim. Ninguém te fará mal comigo aqui! Eu protejo-te! – eu sabia que ele era apenas uma criança, mas tinha a força e a determinação de um adulto na voz. E isso fez-me sentir segura.
         Ele sentou-se ao pé de mim e penteou-me o cabelo que já devia ter ficado emaranhado depois de estar deitada ali na areia com os rapazes a puxarem-me. Apesar de saber que o meu cabelo devia estar cheio de nós os dedos dele que passavam pelo meu cabelo não eram muito mais que ligeiras carícias. Depois disso olhou-me nos olhos. Se um rapaz me deitasse aquele olhar hoje em dia, eu perderia a força nas pernas e esqueceria de como se respira. Mas naquele momento o olhar dele criou um sorriso nos meus lábios que contraiu as minhas pálpebras e levou a que mais algumas lágrimas se soltassem. Aquela visão fê-lo dar-me um abraço e disse baixinho “não chores… Eu estou aqui” e enquanto ele me agarrava para si eu só pensava que não queria que ele fosse embora. Nunca.
         Largou-me e esboçou outra vez aquele sorriso.
         — Gostas de gelado? – perguntou ele enquanto me lançava aquele sorriso.
         Neguei com a cabeça.
         — Oh! Quem é que não gosta de gelado? – perguntou ele enquanto mostrava uma cara escandalizada e tentava mantê-la sem começar a rir.
         — Se não houvesse quem não gostasse não perguntavas.
         Soltou uma longa gargalhada.
         — És inteligente pequenina! Tens quantos anos?
         Levantei a minha mão direita e abria-a com ogulho
         — Cinco! – disse eu com alegria na voz e já com os lábios a curvarem para cima.
         O rapaz deu-me um sorriso.
         — Muito bem! Eu tenho 9 anos. E sou mais velho, e gosto de gelado. Que tal vires comigo buscar um gelado? – enquanto dizia isto apontou para um pequeno café que estava do outro lado da estrada depois de acabar o parque.
         A minha mãe sempre me proibiu de sair de onde me tinham dito para ficar, para não falar com desconhecidos, para não aceitar ir com eles a lado nenhum. E eu seguia essas ordens sem pensar duas vezes. Lembro-me de estar em casa da Joana e de a empregada dela ter telefonado para a minha mãe, para que esta me desse permissão para comer o lanche, pois eu recusava-me porque dizia que não podia receber nada de estranhos. Porém, agora era diferente. O rapaz agarrava-me na mão e apresentava um sorriso gigante. Acenei com a cabeça.


publicado por Sandy às 21:17 | link do post | comentar

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