Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

 

— Mãe porque está o carro a tremer tanto?
         — As raízes das arvores conseguem crescer por baixo do alcatrão e deformam a estrada. Por isso o carro treme tanto. Foi isso que te acordou?
         Acenei afirmativamente com a cabeça.
         —Oh.. Mas não fiques assim, estamos quase a chegar meu amor.
         Aquelas palavras arrepiaram-me. Chegar à nossa casa de férias. Uff…
         Libertei-me de novo para o que me rodeava. E a minha conversa com os pinheiros voltou “Olá menina!” Semicerrei os olhos procurando descobrir qual deles estava a falar comigo. “Olá…” mas não obtive resposta. “Estás aí?” mas a resposta demorou. Não, não demorou, nunca chegou. E não sei qual foi a ténue divisão entre a minha conversa e o sono que me alcançou de novo.
         Acordei com a minha mãe a mexer-me no cabelo.
         — Filha? Querida? – perguntava com um cuidado extremo enquanto os seus dedos acariciavam cada fio de cabelo meu.
         — Sim? – acabei por responder apesar de ainda me encontrar com o efeito da sonolência.
         — Eu e o teu pai vamos tratar de umas coisas de adultos. Estamos já perto de casa. Este é um parque infantil. Que achas de ficar aqui enquanto tratamos das coisas? Fazes uns amigos… - por momentos o seu discurso foi interrompido, talvez pela força da minha pequena mão no seu braço após a sensação de terror que a palavra ficar provocou na minha mente – Nós já vimos, anda daí e não sejas birrenta! Já não tens idade para isso!
         Ela achava mesmo que aquela frase feita me ia contrariar? Eu tinha 5 anos e não tinha pressa nenhuma para ser uma senhorinha como gostavam tanto de dizer. Mas os meus passos não contrariaram os dela e segui-a enquanto agarrava a sua mão. Será que se ela lesse os meus pensamentos eu tinha alguma hipótese de ficar com eles em vez de ficar ali? Gritei interiormente “NÃO QUERO FICAR AQUI!” e parei à espera da reacção da minha mãe. Esta olhou-me com uma grande doçura no olhar, deu-me um beijo na testa e disse “Vais gostar de ficar aqui acredita. E nós estamos mesmo ali – apontou para uma casa branca que se via ao cimo de uma rampa que se iniciava no fim do parque infantil – se acontecer algo podes lá ir ter connosco. Diverte-te meu amor.” Bem afinal conseguia ler-me os pensamentos. O que mesmo assim não me foi muito útil. Mas talvez fosse boa ideia reter esta informação… Nunca se sabia quando ia ser a próxima vez que ia partir a jarra preferida dela, fugir escadas acima e deixá-la pensar que foi o vento que a partiu. Acredito que se a minha mãe me lesse os pensamentos ia tornar essa tarefa mais difícil, teria que ter cuidado com o que pensava ali. Bem se calhar foi por isso que fiquei de castigo daquela vez. Afinal o meu plano tinha sido perfeito, mas esqueci-me que a minha mente era capaz de feitos extraordinários como revelar a minha culpa naquele crime. Que traidora.
         Entrei no parque. Estavam lá muitas crianças. Umas andavam de baloiço enquanto outras escorregavam no grande baloiço vermelho. Havia um grupo de rapazes que jogavam à bola. Não muito longe, consegui ver um grupo de raparigas da minha idade e pareciam-me ter bonecas nas mãos. A alegria invadiu-me e como se outra força se tivesse apoderado de mim, os meus pés pareciam-me demasiado pequenos para os grandes passos que estavam a dar. A meio do caminho acabei por parar. Olhei para o lado e vi um canto sem ninguém. Sem pensar duas vezes esqueci as meninas e as bonecas. Andei num passo lento e melancólico para aquele lugar que me parecia especial. Sentei-me e limpei a areia que já me sujava as mãos. Odiava sentir a areia nas mãos.
         A bola de futebol veio parar a poucos metros de mim. “Ups, e agora?” Mas uns rapazes vieram logo a correr buscá-la evitando o desperdício de tempo que eu ia levar a saber como poderia chutar uma bola de forma a aquela movimentar-me mais que uns meros centímetros. Mas algo pareceu-lhes mais interessante que a bola que já tinham entre as mãos. Eu.
         —Olá minorcas, que fazes aqui? – perguntou um deles.
         Não respondi. O medo deles estava a bloquear-me qualquer modo de comunicação.
         —Então? O gato mordeu-te a língua? – perguntou outro que estava ao lado dele e que agora se deslocava na minha direcção. Conforme se aproximava consegui perceber que deviam ter mais alguns anos do que eu. Demasiados.
         Olhei para trás procurando os meus pais. Vi a casa branca. Será que conseguia correr até lá antes que eles me apanhassem? Olhei de volta para eles apesar do medo me dizer para não o fazer. Ao olhar para as suas pernas e para as minhas consegui entender que nem me ia conseguir levantar a tempo.
         — Oh parece que está com medo de nós! – riu-se outro que já vinha a correr para perto dos amigos.
         Percebi então que a minha cara de pânico não estava a ser disfarçada pela minha normal máscara.
         Um puxão no cabelo retirou-me todos os pensamentos e uma dor aguda afectou-me e foi suficiente para encher os meus olhos de lágrimas.
          — Oh a bebé está a chorar! – já não consegui ver quem falava. As lágrimas deixaram-me pouca visão.
         Um violento encontrão levou-me a ir de encontro à areia. O grito interior que aquilo causou-me quis soltar-se para o exterior, mas obriguei-o a manter-se dentro de mim.
         E as palavras continuaram, e o gozo, e o meu choro. Quanto mais chorava mais me gozavam e mais maneiras tentavam arranjar para me magoar. Mas uma voz de rapaz mais forte gritou.
         Limpei os olhos e espreitei. Vi um rapaz moreno. Parecia ser mais velho que os outros. A voz dele pareceu-me ser o suficiente para deixar os restantes com medo mas ao olhar para os seus olhos, estremeci. Mostravam raiva. Até um adulto ficaria com medo dele naquele momento.


publicado por Sandy às 17:58 | link do post | comentar

2 comentários:
De ♫ Chuva de Prata ♪ a 26 de Junho de 2009 às 22:05
Estou a adorar *.*
Continua a escrever ^^,

Obrigado por me teres adicionado à tua lista de amigos, vou fazer o mesmo.

Beijinho*


De ♫ Chuva de Prata ♪ a 26 de Junho de 2009 às 22:42
Fico imensamente feliz por teres gostado do meu cantinho *.*
Também não te livras das minhas visitinhas aqui ao blog =P


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