Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Como te chamas?

 

 

         — É precisa muita paciência. Ainda a chorar? – a minha mãe olhava-me através do espelho do carro, enquanto o meu pai continuava concentrado nos carros que tinha de ultrapassar. A velocidade a que o meu pai gostava de andar sempre me assustara. Mesmo assim nunca tive coragem de o dizer.
         — Eu não quero ir…
         Fui interrompida pelo olhar da minha mãe. Virou-se para trás e limpou-me os olhos.
         — Vais fazer imensos amigos novos! – disse-o com um brilho nos olhos que para qualquer pessoa não iria existir uma única dúvida que aquilo que ela afirmava era a mais pura das verdades – não estejas assim! É uma aldeia amorosa e vais gostar tanto da casa… O teu quarto está em tons de rosa e ainda comprei uma rede mosquiteira para colocar sobre a cama! Tu adoras aquelas redes! E no jardim há um baloiço…
         Não sei o que ela disse mais. O meu pensamento já estava longe. A palavra “amigos” sempre me assustou um bocadinho. Tenho 5 anos, a idade perfeita para fazer amigos, em que nada nos impede de termos algum protagonismo em qualquer sitio seja qual for a ocasião e ficar com imensos admiradores que nos acham adoráveis. Mesmo assim começava a perceber que não era bem dessas crianças. A timidez e a vergonha estragavam esses planos. Tinha quatro amigas. A Margarida, a Joana, a Sofia e a Isabel. A Margarida é a maior de todas nós. Dou-lhe pelo ombro e não sou nada pequena! Ela tem sempre boas ideias… Mas são sempre coisas a que os adultos não conseguem achar muita piada, mesmo assim isso não nos impede de seguirmos os seus estratagemas. Acho que a ideia de sermos as Navegantes da Lua humanas foi dela. Mas a professora da pré não conseguiu achar piada a que tivesse sempre os rapazes a chorar por nós lhes batermos. Nós? Bem não éramos propriamente nós. A Margarida batia-lhes enquanto nós dávamos um estilo de Hollywood à cena. A Joana é a rapariga a que todos chamam de gorda. Não é tão magra como nós mas também não vejo o porquê de lhe chamarem gorda, já vi pessoas bem mais gordas que ela. Mas acho que o resto das pessoas gosta de lhe chamar gorda só para descobrir que birra é que ela vai fazer. Na verdade, a Joana é um génio em birras! Mas ir a casa dela brincar às princesas é sempre giro. Mesmo que não consigamos ficar mascaradas da mesma figura por muito tempo por ela querer sempre o fato com que nós estamos. A Sofia é a minha protectora. Apesar de ser muito magrinha e pequenina e o cabelo loiro liso emoldurar-lhe o rosto branco como a um anjo, ela tem um modo único de se impor. As palavras dela deixam qualquer pessoa com medo do que diz. Como sempre fui muito tímida, a Sofia dizia “Quando alguém te fizer mal, chama-me!” e não era difícil perceber porquê. Com ela ao pé era impossível gozarem-me. Se o fizessem ela conseguia através de palavras e do seu olhar confiante e ar altivo pôr medo no maior grandalhão do recreio. Quando as palavras não chegavam, apenas tinha de chamar a Margarida. Era óbvio que depois ficávamos todas de castigo. A Isabel. Era uma menina inglesa com uns olhos azuis de não deixar ninguém indiferente. O seu sorriso transparecia tudo. Mas era muito sensível, tudo a deixava com lágrimas nos olhos e parecia ser tão frágil que às vezes tinha medo de lhe tocar, não fosse eu magoá-la sem querer. Quatro amigas.
         Voltei ao mundo da realidade. A minha mãe ainda me olhava com um ar esparançoso.
         — Mas nunca ninguém gosta de mim – disse eu com uma tremura na voz.
         — Meu anjo, quem não te conhece não pode gostar de ti. Mas se te deixares conhecer vai ser mais fácil e não acredito que hajam muitas pessoas com tão bom coração como tu minha querida. E os pais gostam muito de ti! E a avó!
         Aquela palavra fez-me estremecer. A minha avó materna adorava-me. E desde pequena que ia até Queluz passar uns dias com ela. Mas a minha avó paterna nunca morrera de amores por mim. Acredito que para ela mais valia eu não existir, mas também só estava com ela umas duas vezes por ano por isso não me incomodava tanto o desprezo com que me olhava e como as minhas palavras pareciam não ter qualquer sentido humano e muito menos merecessem resposta.
         Acho que a minha mãe percebeu o meu pensamento e apressou-se a passar-me a mão pela cara. O calor que esta me transmitiu fez-me esquecer tudo aquilo em que pensava e sentir-me segura naquele aconchego. Mas depressa a minha mãe arruinou toda aquela felicidade:
         — Vais ver que vais fazer muitos amigos.
         Perguntei-me se acreditava naquilo que dizia, ou apenas estava a mentir-se a si mesma e a mim.
         A minha mãe voltou a virar-se para a frente e eu deixei descair o corpo para o resto do banco. Deitei a cabeça no meu braço e aconcheguei-me no cobertor que estava lá à minha anterior invasão. Quando os meus olhos percorreram a janela que aparecia quase por cima da minha cabeça vi o Cristo Rei. “Ok, vou tentar” e caí no sono.
         Não sei onde andava mas de repente o carro começou a tremer mais do que o normal. Com os olhos ainda ensonados tentei procurar a razão de toda aquela movimentação. Naquele instante tenho certeza que os meus olhos castanhos passaram a verdes por reflectirem aquilo que viam. Nunca tinha visto tantas árvores juntas! Levantei-me e fiquei sentada num instante, abri a janela do carro com uma energia fora do normal e deixei entrar o ar que vinha da rua.
         A minha mãe olhou para trás e esboçou um sorriso.
         — Cheira bem, não cheira? – perguntou ela com um tom de quem não esperava alguma resposta para confirmar aquilo de que tinha certeza.
         Soltei um pequeno riso. Aquele cheiro fazia-me sentir bem. Cheirava a terra molhada, a eucalipto, a mar, a sal, a sol tudo junto. E juntavam-se todos numa combinação harmoniosa. E os pinheiros que passávamos, apesar de irmos ainda a grande velocidade, conseguia distinguir cada um com uma facilidade que me impressionava. Depressa comecei a conversar e a cumprimentar em silêncio os que estavam mais próximos da estrada. Quando ouvi “Olá menina!” libertei um sorriso tão grande que acredito que mesmo alguma pessoa que estivesse a 5km conseguiria ver. Se calhar a minha mãe tinha razão, podia fazer novos amigos ali.

 

 


publicado por Sandy às 16:39 | link do post | comentar

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